Depois do Apocalipse
As videochamadas se tornaram a única maneira de manter contato com os pais– o mundo exterior já não pertencia àqueles que temiam pela própria vida. Em meio a tantas informações apocalípticas, aprendeu a se amar e nos intervalos do home-office, iniciou uma nova jornada.
Juliana ignorou as vinte e duas chamadas na tela. Atirou o aparelho em algum canto do quarto sem abrir as muitas mensagens de WhatsApp. Mais tarde daria conta disso. Por ora, tinha mais o que fazer: ainda restavam duas malas para arrumar.
Em algum lugar do passado ela não deixaria os pais sem respostas. Explicaria aos amigos o passo a passo de suas decisões. Não permitiria que o chefe a esperasse do outro lado da linha, enquanto se olhava no espelho. Em um tempo não muito antigo, Juliana não ouviria a própria intuição, mas aquilo que desejavam que ela ouvisse. Assim foi quando abandonou a Faculdade de Música para estudar Administração: “Dá mais dinheiro”, o pai advertiu. Ou quando se casou com o primeiro namorado por ter engravidado antes do casamento: “Filha minha não vai ficar mal falada”, a mãe rosnou, antecipando o tapa que viria em seguida. Juliana apenas obedecia.
Quando sofreu o acidente que lhe provocou o aborto, ela estava dormindo. Descansava no banco do carona, enquanto o marido alternava a atenção na estrada com os goles na lata de cerveja. Acordou com a batida e não reclamou ao ouvi-lo dizer ao policial que ela era quem dirigia. Guardou para si frustração de perder a carteira de habilitação por algo que não cometeu.
Juliana sempre foi a esposa, a filha, a funcionária perfeita. Sofreu calada quando foi trocada por outra, logo depois de um novo aborto. Teve medo da solidão, mas não tentou voltar para a casa dos pais. Preferiu morar sozinha e enterrar a sua vida no trabalho e em qualquer atividade que a fizesse sentir-se menos sozinha. Acostumou-se com a rotina que não suportava para conseguir sobreviver.
Aí veio a ameaça mundial e Juliana desejou que tudo não passasse de um alarme falso. Negou-se a ouvir qualquer notícia até o dia em que foi obrigada a se isolar. Precisou se acostumar com a própria companhia: tarefa difícil a quem não nunca viveu para si.
As videochamadas se tornaram a única maneira de manter contato com os pais– o mundo exterior já não pertencia àqueles que temiam pela própria vida. Em meio a tantas informações apocalípticas, aprendeu a se amar e nos intervalos do home-office, iniciou uma nova jornada.
O telefone tocou mais uma vez. Juliana deteve-se a apenas ouvir a sua vibração em algum lugar onde seus olhos não o alcançavam. Nem cogitou procurá-lo. O chefe já devia ter recebido o seu pedido de demissão. Guardou as últimas peças de roupa e fechou a mala. Mais tarde passaria na casa dos pais. Uma rápida despedida, seguida de um até logo. Nem desceria do carro.
Juliana perpassou novamente os cômodos da casa. Não sentiu incômodo algum em deixar tudo para trás. Trancou a porta planejando nunca mais voltar. No porta-malas guardou os poucos pertences que ainda cabiam em sua vida. No banco da carona repousava a sua nova companhia: o violino recém comprado para o primeiro concerto.
Conto publicado na antologia Tempo de Voar organizada por Marina Marino ( Revista Vôo Livre de Literatura).
Editora Scortecci
São Paulo- 2023


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