Até que a morte nos separe
"Mentiras sinceras me interessam", já dizia Cazuza. Aqui, escrevo sem máscaras: ideias tortas, desabafos públicos, palavras cruas e verdades incômodas. Não peço licença — só espaço. Às vezes, escrever é a única forma de continuar.
“Ele era tão bom pra mim”. Sentada em frente ao caixão, Helena repertia a cada abraço ou aperto de mão. "Era um casal tão feliz.", diziam uns. "Viviam tão bem", afirmavam outros. E eram tantos a consolá-la! Eram tantos a se compadecerem pela perda sofrida por aquela mulher. Uma mulher tão dedicada ao marido e ao lar. Que desafiara a própria mãe para casar-se às escondidas, e não em uma linda cerimônia religiosa. Formalidade considerada desnecessária por Jorge.
Helena sempre quis se casar na igreja. Não perdia nenhuma celebração para o qual fosse convidada. Sempre pegava os buquês das noivas, aguardando a sua vez de jogá-lo. De tantos enlaces assistidos, já sabia de cor as tais frases ditas pelo padre. Aquelas frases repetidas todas as vezes em que a mãe falava do marido morto: “Até que a morte os separe, o padre disse e é assim que deve ser. Foi assim comigo e com o seu pai”. Helena também sonhava usar o vestido branco e entrar na capela do povoado de braços dados com o pai como faziam todas as moças. Mas quando conheceu o amor de sua vida, o pai já havia falecido e Jorge achava casamento religioso uma bobagem.
“Não tem problema. Você pode entrar na igreja com um tio ou qualquer outro homem”, insistia a mãe de Helena. “Quando eu me casei, meu pai também já tinha morrido”, dizia a mãe. “Mas Jorge não quer casar na igreja”. Isso a mãe não aceitava. Ouvir as palavras do padre era fundamental para um bom casamento. A filha deveria se casar na igreja.
Contrariando a mãe, um dia Helena saiu com Jorge pela manhã e só retornou no final da tarde. Haviam se casado sem permissão de suas famílias e alugado um lugar para morar. Com o dinheiro poupado da cerimônia, pagariam a entrada de uma casa financiada. Não era o futuro que a mãe desejava para a filha, mas não restando alternativas, aceitou aquela decisão. Com o tempo, até passou a gostar do genro. Percebeu que ele era tão ambicioso quanto os homens de sua família e isso lhe agradava. Só lamentava a filha não ter ouvido as palavras do padre. Aquelas palavras seriam o seu guia para um bom casamento.
No dia seguinte à união oficializada, a mãe chamou Helena no quarto e lhe deu a herança mais importante da família. Entregou-lhe as louças pintadas à mão e os talheres de prata que passavam entre as mulheres de sua casta por várias gerações. Explicou à filha a importância daquela relíquia para a sua família e de como deveria usá-las. As peças só deveriam ser utilizadas em uma ocasião muito especial. Apenas uma vez. Junto ao presente entregou à filha um pequeno manual de instruções que deveria acompanhar aquele uso. Emocionada e um pouco intrigada, a jovem pediu perdão à mãe, prometendo cumprir o combinado. Honraria o legado das mulheres de sua família, mesmo não se achando merecedora de tão grande honra.
Diante do esquife que carregava o seu amado, Helena não escondia o seu sofrimento e por vezes, desesperava-se ao ponto de quase desfalecer. “Ela amava demais o marido”, diziam alguns. “O que será da Helena sem o Jorge?”, diziam outros. O rosto cansado, molhado de lágrimas, a transformava em um ser frágil e pequeno. Alguém digno de pena. Uma fragilidade que sua aparência física não demonstrava. Helena tinha um corpo forte, bem conservado para a sua idade avançada. Não parecia preparada para a viuvez, mas a morte não faz perguntas.
Poucos sabiam que o marido ainda agonizava quando o socorro chegara. O seu prato preferido do marido, intacto, esfriava sobre a mesa, quando ela o encontrou desfalecido. No chão: louças quebradas, a cadeira virada e o homem estendido no chão. Apoiando a cabeça de Jorge em suas pernas, Helena ligava para a ambulância. Os socorristas, não chegando em tempo hábil, apenas confirmaram o último suspiro.
Em anos de casamento, o casal adquirira muitos bens que Jorge sempre colocava no nome da esposa. Helena não demorou a entender o motivo dessa atitude: não queria dividir os bens com as amantes. No mês seguinte ao casamento, ele já tinha casos com outras mulheres. Ela sempre soube e mesmo assim o amava. Amara tanto, a ponto de aceitar quando ele disse não gostar de ficar preso e preferir passar mais tempo no bar do que com em casa. De receber para o almoço de domingo o filho dele com outra, anos depois de ter ouvido do próprio marido o desejo de não ter filhos. Suportava brigas, via fotos de Jorge com outras mulheres e resistiu. Lembrava sempre da tal frase e mesmo sem tê-la ouvido, cumpriria os preceitos da igreja. “Até que a morte os separe”.Helena aguentava todo tipo de humilhação, mas nunca se separaria.“O que Deus uniu o homem não separa”, ela pensava.
Na noite de sua morte, Jorge entrara em casa com uma arma na mão. A amante lhe exigira a separação e ele prometia matar a esposa se ela não aceitasse. Estava tão bêbado que tropeçou nas próprias pernas, derrubando o revólver que segurava. Helena ajudou o marido a se levantar, o carregou até o banheiro e ligou o chuveiro. Enquanto ouvia o barulho da água no piso, dirigiu-se à cozinha e tirou do armário o seu presente de casamento. Dentro de uma das peças, o papel dobrado que a mãe lhe entregara estava amarelado pelo tempo. Enfim, chegava a ocasião especial. A sua vez de usar a herança da família como fizera a sua mãe e sua avó.
Quando Jorge saiu do banho a mesa estava posta para o jantar . Estranhou as louças que a mulher decidira usar. Já nem lembrava que elas existiam. Entre outros, o seu prato preferido. Com certeza, ela queria agradá-lo para que desistisse da separação, Jorge pensou. Ninguém fazia uma lasanha como Helena. Como sempre, não esperou que ela o acompanhasse. Helena não lembrava se chegou a avisar que iria ao banheiro. Quando voltou, ele já estava no chão.
Na saída para o enterro pensaram que ela morreria. Com crises de tonturas e o seu coração acelerado, mais uma vez suportou a dor. Lembrava de Jorge com pena. Ele nunca a conheceu de verdade. Quando o caixão baixou à sepultura, já recomposta de tanto desespero, levou a mão ao bolso e leu mais uma vez o atestado de óbito.
“Mais um caso de infarto na família”, confortaram-na os parentes. Helena não se admirava. Era a sina das mulheres de sua família: tinha sido assim com a sua avó e com a sua mãe. Com ela não seria diferente. Não ouviu as palavras do padre em seu casamento, mas nunca se esquecera a frase sempre repetia pela mãe “ Até que a morte os separe”. Era assim que deveria ser.
Conto de Andréia Schefer
Publicado na Revista Paranhana Literário em Dezembro de 2021
http://paranhanaliterario.jm2d.com.br/files/11-2021-lite.pdf
Excelente! Intrigante. Um belo conto.
ResponderExcluirEstupefata com a história. Maravilhoda !
ResponderExcluirMaravilhoso conto. Deixa a pensar
ResponderExcluirExcelente representação de muitos "Jorges" pelos quais passamos na escola...
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