Álbum de família
De todas as boas lembranças de sua vida, as melhores foram guardadas naquele álbum. Memórias de tempos antigos; remotos, de quando as fotografias ainda eram reveladas em estúdio. De quando apenas os melhores momentos mereciam retratos.
No álbum amarelado pelos anos, Eva colecionava as suas emoções e seus encantos. Reunia a saudade daqueles que passaram por sua vida e também daqueles que ficaram e não eram mais os mesmos. Sua história estava ali: o seu casamento, a infância das filhas… o avô que o neto que estava para nascer, nunca conhecerá.
Teria acumulado muito mais reminiscências se uma tragédia não tivesse destruído a sua casa e tudo que havia nela. Culpa de sua memória debilitada! Velha demais para morar sozinha, quase não sobreviveu à noite fria e ao aquecedor ligado.
Já não tinha o seu velho marido, com quem contava nos dias tristes. Também já não existiam suas memórias documentadas. Nem casa ela tinha: precisou morar com a filha grávida.
Tentou se animar com a chegada do neto, mas pouco adiantou. Não tinha um legado a lhe deixar. Aos poucos o passado se apagaria de sua mente e de nada mais ela se lembraria. Seria apenas um fantasma preso a um corpo cansado e envelhecido.
Um dia, Eva olhava pela janela e não viu a filha chegar de mansinho. Não percebeu que, atrás de si, ela trazia um aparelho eletrônico um tanto estranho. Continuou sua costumeira observação. Só enxergou o tablet sobre a mesa da cozinha, quando passou para pegar um copo de água. Na tela, passavam imagens: as fotos do seu velho álbum.
Eva jamais entendeu como as suas lembranças foram parar naquele objeto. Desconhece aquele mistério, mas tem uma única certeza: seu neto verá todos os dias o avô que não conheceu.


muito real ,uma nostalgia,parabens esta otimo.
ResponderExcluirSimplesmente maravilhoso!
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