O poeta ainda vive
Renato Russo já dizia, em uma de suas canções, que os bons morrem cedo — talvez já prevendo o seu destino e o de tantos outros contemporâneos que se foram na flor da idade, quando ainda havia muito a ser feito. Os anos 1980 foram o ápice da rebeldia pós-repressão, da liberdade sexual, do direito de voltar a dizer e fazer o que se quisesse, sem correr o risco de morrer torturado em porões escuros (embora algumas atrocidades ainda acontecessem de forma inesperada). Nesta mesma década, os brasileiros resgataram a cidadania que lhes foi roubada, retornando às urnas para escolher os seus governantes. Era um período de esperança, de fé no futuro e se não fosse o surgimento de uma praga para a qual, até hoje, a cura não foi encontrada, os anos 1980 teriam sido ainda melhores. As notícias vinham assustadoras. Todos os dias, alguém morria, e nem se sabia ao certo do que. Os sintomas eram parecidos: febre, fraqueza, pele amarelada e emagrecimento. No entanto, demorou-se a entender que a peste, à qual primeiramente chamaram de câncer gay, infectava também mulheres e crianças e era transmitida pelo sangue. A doença que, após muitas pesquisas, passou a ser chamada de AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) levou muitas vidas. Renato Russo, mencionado no início deste texto, foi uma delas. Morreu em 1996, sem nunca ter falado publicamente sobre sua condição. Cazuza, por outro lado — também um dos grandes ícones da nossa música — foi a primeira personalidade brasileira a declarar-se soropositiva. É sobre ele que desejo falar hoje, no dia em que se completam 35 anos de sua morte. Cazuza transformou o medo em arte e a dor em poesia. No palco mostrou a sua resistência, não aceitando a piedade do público diante da figura magra e abatida que havia se tornado. Ele não se escondeu na fragilidade da doença e quando muitos se calaram, expôs as feridas com a crueza de quem não suportava meias verdades. Em entrevistas, aparições públicas e, sobretudo, em suas letras, Cazuza denunciava a hipocrisia de uma sociedade que preferia ignorar a doença a encarar seus próprios preconceitos. Uma sociedade que abandonava os seus doentes ao descaso e à morte. Cazuza viveu como quis e nunca se arrependeu disso. Escolheu a intensidade, o exagero, a liberdade, em vez das convenções. Não fazia questão de agradar, tampouco de ser compreendido. Sua existência era um manifesto: viver era mais urgente do que se encaixar. E assim, incomodava. Incomodava antes, incomoda ainda hoje. Cazuza foi, antes de tudo, um poeta. Embora embaladas por guitarras e baterias, suas letras carregavam um lirismo cru, uma confissão sem filtros. Falava de amor, da morte, denunciava hipocrisias e era capaz de tocar o mais íntimo da alma de quem o ouvia. Morreu cedo, mas sua voz ainda ecoa. Sua poesia não envelheceu. Ao contrário, amadureceu conosco. Cazuza nos deixou há 35 anos, em um triste dia de inverno, vencido por uma doença ainda incurável. Ainda assim, o poeta que conhecemos segue vivo nos lembrando que viver é urgente, mesmo quando o mundo insiste em nos pedir silêncio.



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